Archive for June, 2008

Agile Software Deployment?

Friday, June 20th, 2008

A melhor coisa sobre meu trabalho atual é que, como consultores, tentamos sempre pensar fora da caixa. Isso não é fácil numa consultoria, você pode imaginar, já que o mercado tende à empresas de três letrinhas que não se interessam tanto em otimizar ou melhorar e sim em cobrar por hora.

Um desses momentos recentes me fez passar por algo que eu nunca havia visto na pratica: como fazer deployment (instalação) e administração de software de maneira ágil?

O cliente em questão possui times ágeis em diversos segmentos há alguns anos. Durante o andamento de um projeto enorme surgiram algumas dificuldades em gerenciar ambientes e versões do software. Apesar de toda a agilidade os testadores ainda precisam que versões específicas, com bases de dados específicas, estejam instaladas em ambientes para homologar o sistema. Para piorar mesmo os desenvolvedores precisam ter uma instância de uma search engine (algo como o Lucene) e popular esta engine para que seja usável demora por volta de 10 horas.

Era preciso controlar qual desenvolvedor possui acesso à qual instalação da search engine e quais as versões instaladas em quais ambientes. No passado já ocorreu algumas vezes de um deployment para QA demorar mais que o esperado pela confusão generalizada de ambientes e isso atrasar o release para produção em uma semana.

A primeira proposta que eles tiveram foi clássica: vamos automatizar tudo. Construir um mega-sistema que controle o que está instalado onde, avise por email os responsáveis, tenha um controle de workflow, se integre ao sistema de QA, seja parte do IBM Tivoli, faça café… e seja extremamente caro.

Uma outra proposta surgiu do “grupo de governança” da empresa: ninguém faz deployment de nada sem ser autorizado. Toda vez que alguém precisa subir algo para QA ou outro ambiente precisa usar o Jira, toda vez que alguém precisar de uma modificação numa instancia da search engine precisa usar o Jira. Todos os pedidos são aprovados pelas pessoas competentes.

Aí começa o trabalho da nossa equipe: como ter o benefício esperado sem ter que vender a empresa pra comprar o sistema ou passar 20% do tempo preenchendo formulários?

O início deste trabalho foi feito seis meses atrás e foi parte do meu primeiro projeto aqui. Apos analisarmos o sistemas vimos que ele era estupidamente complexo sem a menor necessidade. O débito técnico foi se acumulando com o passar dos anos e uma coisa simples como instalar um WAR no Tomcat estava levando mais de duas horas, e trabalhando em par! Um dos grandes problemas era que das duas horas uma você gastava andando pelo corredor perguntando para outras pessoas o que fazer no caso X, qual a versão que está no servidor Y, etc.

A primeira coisa a se fazer era resolver o débito técnico. Não há solução que agüente mais de um mês em pé com aquela quantidade de problemas para resolver (incluindo um build que durava mais de quarenta minutos). Para isso os donos do negocio aceitaram alocar 10% dos pontos de uma iteração e, conforme a previsão, a maioria dos problemas graves se solucionou em cinco meses.

Enquanto isso, para amenizar o problema de maneira imediata, nós resolvemos usar um quadro-branco com a configuração dos ambientes. Quando a pressão do release passou o quadro foi para no wiki interno, numa grande tabela que qualquer um editava. Para o problema das instâncias de search engine nós criamos tokens: cada instancia tinha um cartão. Se você precisa de uma instancia você vai até uma parede e pega um cartão, adiciona as configurações daquela instancia na sua máquina e cola o cartão no seu monitor.

Simples e eficiente, a solução do cartão dura até hoje. O mesmo não se pode dizer do wiki. Enquanto o grupo de usuários era pequeno o wiki serviu de maneira ótima, após passarmos de algumas dezenas de pessoas -e diversos sub-projetos e spikes rodando em paralelo- ele se tornou inviável. O problema é que a tabela não comporta mais todos os dados de maneira eficiente e qualquer tentativa de organizar em sub-páginas faz com que as pessoas “esqueçam” de atualizar o wiki. Solução? Seguir o exemplo do que deu certo: cartões!

Acima você pode ver uma das paredes de cartões para nosso controle de mudanças e versões. O cartão rosa, no topo, tem o nome do ambiente. Cada um dos cartões azuis abaixo deste representa um dos componentes, os post-it laranja indicam as versões que foram instaladas. Os amarelos indicam qual instancia da search engine é usada em qual ambiente.

Os outros post-its colados nos cartões são meta-dados, eles indicam, por exemplo, que um serviço está inativo:

Esta solução tem funcionado nos últimos meses de maneira exemplar. Na verdade ela funciona tão bem que o problema agora é convencer os analistas de negocio que o problema do deployment não está solucionado e que eles ainda precisam investir nele.

Uma das conseqüências dessa técnica é que as duas pessoas que ficavam alocadas 100% do tempo gerenciando ambientes estarão em breve voltando a desenvolver as histórias e gerar valor de negócios ao invés de dar suporte aos desenvolvedores.

Muitas vezes você não precisa de milhões de dólares nem de burocracia, basta pensar fora da caixa.

Ruby é JavaScript ao Avesso

Thursday, June 12th, 2008

O titulo é uma brincadeira mas é uma boa forma de lembrar algumas coisinhas sobre programação nestas linguagens. Cada vez mais lidamos no dia-a-dia com conceitos que estão presentes há décadas em linguagens mais esotéricas mas nunca deram as caras no mainstream, um deles é o uso de funções como abstração. Existe um conflito de termos aqui então só para deixar claro eu não estou falando de funções como em programação procedural mas sim de funções como vemos em closures.

Muita gente tem escrito sobre como devemos aprender programação funcional. Eu concordo mas não posso deixar de notar que quando alguém diz programação funcional geralmente ela quer dizer Higher-Order Functions.

E o que é isso? Bom, uma linguagem possui higher-order quando uma função pode receber como parâmetro outra função. O nome deriva do fato de que uma função que recebe outra é considerada de ordem 1, uma função que recebe outra que recebe outra é considerado 3 e assim em diante.

JavaScript possui higher-order programming. Funções são a abstração principal em javaScript e elas podem ser passadas à vontade pelo programa. Por exemplo, vamos supor que queremos comparar dois objetos de acordo com um critério arbitrário. Em JavaScript podemos fazer algo assim:

function melhorEntre(um, outro, criterio){
  if(criterio(um, outro)){
    return um;
  }
  else {
    return outro;
  }
}

sorvete1 = {sabor: 'morango'};
sorvete2 = {sabor: 'chocolate'};

prefiroChocolate = (function (s1, s2){
                                   return (s1.sabor === 'chocolate');
                            });

prefiroMorango = (function (s1, s2){
                                  return (s1.sabor === 'morango');
                            });

alert(melhorEntre(sorvete1, sorvete2, prefiroMorango).sabor);
alert(melhorEntre(sorvete1, sorvete2, prefiroChocolate).sabor);

Em Ruby o código ficaria um pouco diferente:

def melhor_entre(um, outro, criterio)
    if criterio.call(um, outro)
        um
    else
        outro
    end
end

sorvete_1 = { :sabor => 'chocolate' }
sorvete_2 = { :sabor => 'morango' }

prefiro_chocolate = lambda {|s1,s2| s1[:sabor] == 'chocolate'}
prefiro_morango = lambda {|s1,s2| s1[:sabor] == 'morango'}

puts melhor_entre(sorvete_1, sorvete_2, prefiro_morango)[:sabor]
puts melhor_entre(sorvete_1, sorvete_2, prefiro_chocolate)[:sabor]

Agora vamos pensar: as duas linguagens possuem higher-order programming? Não, só JavaScript possui. Em Ruby o que é passado não é uma função e sim um objeto, veja só:

prefiro_chocolate = lambda {|s1,s2| s1[:sabor] == 'chocolate'}
puts prefiro_chocolate
#=> #<Proc:0x00028a64@tmp/compara.rb:19>
puts prefiro_chocolate.class
#=> Proc

O principal divergente da solução em Ruby é que você deve passar a mensagem call para o objeto (ou usar a palavra-chave yield). Na pratica do dia-a-dia não tem tanta diferença e é comum falar em higher-order Ruby.

Em Ruby não precisamos de funções de verdade para termos higher-order programming, podemos usar objetos para modelar as funções. Em JavaScript não temos construções especiais para objetos, mas utilizamos funções:

function Sorveteiro(){
  this.numeroDeVendidos = 0;
  this.vender = function(){this.numeroDeVendidos++;};
};

s = new Sorveteiro();
alert(s.numeroDeVendidos);
s.vender();
alert(s.numeroDeVendidos);
s.vender();
s.vender();
alert(s.numeroDeVendidos);

Alguém me disse essa semana que uma das grandes vantaens em aprender higher-order programming (a pessoa falou em programação funcional mas não é bem isso que ela quis dizer) é que com ela você simula objetos mas o contrario não é verdade. Bom, não é assim. Nada impede de você ter higher-order programming em uma linguagem Orientada a Objetos (JavaScript é Orientada a Objetos!) e com objetos você pode facilmente modelar higher-order programming.

E qual a diferença disso tudo para programação funcional? Bom, programação funcional usa higher-order programming, mas não é isso que define uma linguagem funcional (JavaScript não é funcional).

Em 1984, John Hughes publicou um paper chamado “Why Functional Programming Matters”. Este paper é, até hoje, uma das obras mais importantes para o paradigma. Nele o autor descreve:

The special characteristics and advantages of functional programming are often summed up more or less as follows. Functional programs contain no assignment statements, so variables, once given a value, never change. More generally, functional programs contain no side-effects at all. A function call can have no effect other than to compute its result. This eliminates a ma jor source of bugs, and also makes the order of execution irrelevant - since no side-efect can change the value of an expression, it can be evaluated at any time. This relieves the programmer of the burden of prescribing the flow of control. Since expressions can be evaluated at any time, one can freely replace variables by their values and vice versa - that is, programs are “referentially transparent”. This freedom helps make functional programs more tractable mathematically than their conventional counterparts.

Erik Meijer apresentou uma palestra no JAOO chamada “Why Functional Programming (still) Matters” onde ele afirma que nenhuma linguagem é realmente funcional, provando que se pode simular efeitos colaterais em Erlang, Haskell, F# e várias outras.

A conclusão do Erik -é claro que defendendo suas decisões ao criar o LINQ- é que os conceitos por trás das linguagens ditas funcionais são mais importantes do que ser uma linguagem puramente funcional ou não.

Isso significa que você deve aprender sobre programação funcional e aplicar suas técnicas sempre que necessário mas cuidado com o termo “funcional”. Na maioria das vezes você quis dizer Higher-Order Programming.

Update: Alguns dos comentários msotram uma confusão com funções javaScript e objetos. Não só o texto falou que em JavaScript funções são objetos bem como ele mostrou o exemplo do sorveteiro, mas tentando deixar ainda mais claro:

ds