Archive for February, 2008

Gerenciando Débitos

Sunday, February 17th, 2008

Todo projeto que já participei, dos meus pet-projects até os com equipes imensas, possuem algum nível de tech debt. Sempre a mesma história: não temos tempo para isso agora, na próxima oportunidade corrigimos.

O problema é que em muitos casos o acúmulo de coisas que deixamos pelo meio do caminho é prejudicial à saúde do projeto. Mais que preciosismo de nerds e perfeccionistas, tech debt pode –e geralmente vai- atrasar o andamento do time.

Nos projetos que eu gerencio eu gosto de alocar um orçamento para resolver estes problemas. Durante o planning game eu deixo claro que precisamos resolver problemas enquanto estamos implementando funcionalidades e geralmente aloco alguns pontos na iteração para eles, normalmente algo perto de 20% do trabalho. Normalmente eu aceito que estas histórias técnicas tenham prioridade baixa e no geral tudo ocorre bem.

Se temos uma emergência então eu costumo não ser muito flexível em relação à solução do problema. As histórias técnicas neste caso ganham prioridade máxima dentro da iteração.

Como geralmente o cliente está satisfeito com a velocidade da equipe num processo ágil (se não está temos outro problema) quando sobra –e quase sempre sobra- tempo extra numa iteração geralmente eu preencho com tech debt, e em especial deixo os desenvolvedores priorizarem o que querem fazer. Muitas vezes não dá tempo para fazer homologação destas mudanças durante a iteração vigente e elas acabam indo para produção apenas na iteração posterior, mas é uma boa estratégia.

O que importa é não deixar o tech debt acumular. Se você tem duvidas dos problemas que o acúmulo de histórias técnicas causam basta lembrar a última vez que você entrou em um projeto para dar manutenção em um sistema pré-existente. Eu nunca vi um caso onde o sistema antigo não tenha toneladas de problemas causados por “deixar para depois” mudanças que não eram urgentes mas foram crescendo em urgência com o tempo.

E claro que meu projeto atual não é diferente. Trata-se da conversão de boa parte de um sistema legado em Java para Ruby (não Rails, Ruby). Como todo projeto deste tipo o orçamento não contempla uma reescrita do sistema, apenas uma conversão. Isso quer dizer que se um módulo assovia e chupa cana em Java ele, teoricamente, vai assoviar e chupar cana em Ruby.

O bom de trabalhar em um time ágil é que não é porque no início do projeto não se pensou em melhorar as coisas que isso precisa ser verdade até o fim dele. Após a equipe (desenvolvedores, analistas de negócios e gerente de projetos) percebemos que alguns itens realmente estavam atrapalhando o andamento do projeto. Nossos dias estão cercados de tarefas repetitivas que existem apenas para contornar alguma “gambiarra” que o sistema original tinha e nós estamos reproduzindo de maneira burra. Levamos a questão aos clientes e fizemos entender que se gastarmos alguns pontos nestas tarefas em algumas iterações nossa velocidade irá aumentar, e muito.

Apos conseguirmos 25% dos pontos de uma iteração para histórias técnicas veio a questão: temos dezenas de problemas, o que faremos primeiro? Como é um time grande cada um tem seu ponto de vista sobre o que está errado e o que precisa melhorar, então fizemos da maneira ágil: disciplina e flexibilidade.

Marcamos uma reunião com o time e coletamos em cartões todos os problemas que conseguíssemos pensar. Os cartões foram pregados na parede, divididos entre coisas do dia-a-dia e coisas que realmente indicam a visão que o sistema deve tomar, aspectos arquiteturais.

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Depois cada um recebeu 5 votos para distribuir entre os cartões. Quase todas as histórias eram importantes então precisamos limitar o numero de votos para entender o que realmente é critico.

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Apos este exercício nós criamos um backlog paralelo para o produto, apenas com histórias técnicas. Este backlog foi estimado e baseado nele o time decide que história técnica entra nos 25% de pontos disponíveis.

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Uma das vantagens dessa abordagem já foi percebida. Nosso sistema é um fluxo de operações em sequência. Operações em sequência são uma ótima área para programação procedural e isso fez com que os desenvolvedores originais do sistema seguissem este paradigma.

Claro que quando se mistura uma linguagem orientada a Objetos com código procedural é necessária muita cautela, e a maioria das pessoas acha que para o código ser procedural basta usar atributos públicos nas suas classes. Existem muitas métricas para qualidade de código procedural (a maioria das métricas de código OO são evoluções ou adaptações destas, na verdade) e nosso código não seguia nenhuma.

Aproveitando o nosso orçamento para histórias técnicas nós introduzimos um sistemas de jobs, uma implementação do padrão Chain of Responsibility. Até agora 50% das funções já foram convertidas para o modelo novo e a cada iteração mais são convertidas.

O resultado das ultimas iterações mostra um aumento consistente de 10% na velocidade. Todos os envolvido creditam esta melhoria à mudança e ainda estimamos que quando todo o sistema for convertido para a nova arquitetura teremos por volta de 25% de aumento total.

Existem coisas simples que podem decidir se um projeto vai ser um sucesso ou fracasso. Não esconder sujeira debaixo do tapete é uma delas.

Genérico

Monday, February 11th, 2008

Recentemente terminei meu primeiro projeto na ThoughtWorks. Como de normal com projetos ágeis esse terminou no prazo e com clientes satisfeitos já prontos para a segunda fase, mas teve algo especial. Foi meu primeiro projeto agile white-label.

A ThoughtWorks é uma empresa especializada em boas práticas de gestão de projetos, análise de negócios e desenvolvimento de software. Não é uma empresa especializada em XP ou Scrum ou Crystal ou que quer que seja.

Com tantos especialistas no escritório não é difícil imaginar que se pega o que melhor funciona em uma metodologia e em outra para formar uma metodologia única, adaptada àquela empresa. Como evangeliza Jacobson, o importante não é o processo em si e sim as praticas.

Nossas praticas neste projeto variaram entre XP e Scrum e as desenvolvidas internamente na ThoughtWorks e que não são tão conhecidas ou por um acaso nunca foram publicadas.

Eu notei algumas coisas boas e ruins no processo. Como estou acostumado a seguir um conjunto específico de metodologias foi muito bom não estar preso à uma prática. No Scrum, por exemplo, se você não segue uma pratica pode complicar outras, elas são habilidosamente encadeadas. Como nós criamos o nosso encadeamento não havia tanto problema em mudar as regras no meio do jogo quando víamos que algo não ia dar certo, mas ao mesmo tempo a falta de uma “arquitetura de processo”, uma linha-guia que dita a estratégia, foi sentida.

Outra coisa importante é que eu não tentaria algo parecido com pessoas inexperientes Existe uma tendência nas adoções de agilidade à largar uma ou outra pratica que parecem menos interessantes ou mais trabalhosas. Eu sou completamente a favor de se personalizar a metodologia com o tempo mas sou completamente contra fazer isso durante a adoção inicial –a menos que seja uma ferramenta didática e a prática seja introduzida no decorrer do período. Adaptação de metodologia deve ser fruto de feedback, não se deve retirar algo do processo antes mesmo de tentar para ver as conseqüências. É claro que existem exceções mas as pessoas que criaram e mantêm as metodologias ágeis tiveram um motivo para colocar aquela pratica ali, se você não vê valor nela existe uma grande chance de não entender ara que ela existe. Tudo bem remover a pratica após entender, só não retire do processo algo que você não conhece e pode ser o coração da coisa toda.

Da mesma maneira, customização demais matou o RUP. O RUP é genérico demais e ao mesmo tempo que é tudo não é nada. Eu já trabalhei em mais de uma dezena de projetos que se diziam RUP e a única coisa que eles compartilhavam era uma burocracia infernal.

Seja qual for sua escolha, Srum, XP, Crystal ou White-Label, o que importa para mim são os valores. As praticas são apenas maneiras de se atingir os valores e apesar delas diferirem entre processos ágeis todos eles tem como objetivo –ou deveriam ter- chegar até os valores expressos aqui.

Revendo Grupos de Usuários

Friday, February 1st, 2008

Há uns 4 ou 5 anos eu faço parte do RioJUG (mesmo na Austrália ainda faço parte do grupo) e nos últimos anos viajei e conheci JUG e outros grupos de usuários no país todo.

Acho que existem três grandes padrões para grupos brasileiros. O primeiro é do estilo do RioJUG: uma apresentação à cada X dias com uma palestra. Pouca participação do público, pouco networking. No Rio ainda é mais complicado porque as reuniões vão até tarde e as pessoas mal tem tempo para o lanche no final.

Outro padrões é o de Dojo. Pessoas se reúnem e resolvem um problema com código, aprendendo sobre ferramentas e plataformas no caminho. Muito networking, muita participação mas geralmente o conteúdo só se espalha até todos terem um razoável conhecimento sobre ele,não existe a figura de uma pessoa que apresenta algo muito novo ou experimental. Além disso no Brasil temos poucos notebooks nas mãos das pessoas -apenas gerentes líderes e etc.- o que elitiza os frequentadores.

Outro tipo é quando as pessoa apenas se reúnem para conversar. A comunidade de Software Livre é especialista nisso e geralmente a conversa começa ou termina no bar.

Todos são legais. A comunidade Java brasileira cresceu muito basicamente com este tipo de divulgação. Mas eu, sinceramente, enchi o saco.

Hoje estou no escritório da ThoughtWorks em Melbourne, onde estou baseado. Temos aqui o encontro do grupo de usuários de Ruby de Melbourne, que é hospedado aqui no escritório (também teremos aqui o BarCamp Melbourne em Fevereiro). Este grupo tem uma estrutura de reunião bem interessante.

Começa com a eventual apresentação pelo coordenador, bem rápida. Depois, durante vinte minutos, pessoas conversam sobre coisas interessantes que viram, comentários rápidos e indicações de onde achar mais informação. Depois uma apresentação sobre um tema de meia hora. Um intervalo com pizza e refrigerante (oferecidos pela anfitriã) e nos trinta minutos restantes temos lightining talks, palestras muito rápidas -cinco à dez minutos- sobre coisas aleatórias no mundo Ruby/Rails. No fim vai todo mundo para o pub, como bons australianos. Como em Melbourne anoitece às 21h nessa época do ano a noite ainda nem começou.

A palestra principal foi sobre TreeTop mas falamos sobre Faker, benchmarks de servidores web, ImageMagik, a LnuxConf Melbourne que está rolando esses dias e dezenas de outras coisas. Não haviam espectadores, todos eram participantes.

Fazia muito tempo que não tinha uma noite nerd tão agradável.